A política possui um talento extraordinário para produzir frases que envelhecem numa velocidade impressionante. Em determinado momento, a ordem era enfática: “Delata, Vorcaro!! O Brasil não aguenta mais tanta sujeira e corrupção. Que paguem todos. Todos” - “Todos.” Essa última palavra é particularmente bonita. Forte. Solene. Republicana. Quase dá vontade de colocar numa moldura.
O pequeno problema
aparece quando descobrimos que “todos” significa realmente todos, inclusive
quando o relato, a investigação ou as revelações começam a atingir quem estava
na arquibancada pedindo sangue. É muito confortável defender transparência
quando imaginamos que a luz será apontada exclusivamente para o adversário.
É fácil gritar: “Investiguem!”
Quando esperamos que investiguem os outros. É fácil exigir: “Conte tudo!” Quando
temos certeza de que nosso nome não aparecerá na história.
E é maravilhoso
proclamar: “Que paguem todos!” Até descobrirmos que o substantivo “todos” não
possui filiação partidária. Aí o princípio abstrato encontra a realidade. E a
política oferece uma de suas cenas favoritas: o sujeito que pediu que abrissem
a caixa agora observa, ligeiramente desconfortável, o que está saindo de dentro
dela.
Mas é justamente
aí que descobrimos se havia um princípio ou apenas conveniência. Se queremos
investigação, queremos investigação até o fim. Se queremos transparência,
queremos transparência para todos. Se queremos responsabilização, ela não pode
terminar exatamente na fronteira do nosso grupo político. Direita, esquerda,
centro, governo ou oposição: o critério precisa ser o mesmo.
E convém fazer uma ressalva indispensável: ser mencionado, citado ou tornar-se objeto de apuração não significa automaticamente ser culpado. Acusações precisam ser verificadas, versões precisam ser confrontadas e responsabilidades precisam ser demonstradas por evidências. Mas a ironia política permanece complexa e seletiva. Porque algumas frases não precisam ser refutadas.
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