“Tia Nem” ressalta, que “eleitor não precisa anunciar sua decisão. Não precisa justificar seu voto. Não precisa convencer ninguém”!
Há um momento em que a decepção deixa de ser surpresa e passa a ser aprendizado. Talvez seja isso que esteja acontecendo com uma parcela da população. Durante muito tempo, a política foi apresentada como o caminho para transformar a vida das pessoas. E deveria ser.
O problema começa quando o poder deixa de ser instrumento de serviço e passa a ser tratado como patrimônio de quem o ocupa. Alguns entram na política falando em servir. Depois, aprendem a sobreviver politicamente. E, com o tempo, alguns parecem esquecer para quem deveriam trabalhar.
O curioso é que, a cada eleição, a história ganha novos personagens, mas o roteiro permanece quase o mesmo. Surgem promessas cuidadosamente escolhidas, discursos emocionados, fotografias ao lado do povo, abraços, apertos de mão e palavras que despertam esperança. E novamente uma parte da população acredita.
Não necessariamente porque seja incapaz de perceber a realidade, mas porque todo ser humano deseja acreditar que, desta vez, pode ser diferente. O problema é quando a esperança passa a ser utilizada como instrumento de repetição.
Promete-se novamente aquilo que não foi realizado anteriormente. Explica-se novamente aquilo que já foi explicado. Justifica-se novamente aquilo que deveria ter sido resolvido. E o eleitor é convidado, mais uma vez, a acreditar. Mas existe uma mudança acontecendo que talvez não esteja sendo percebida. As pessoas estão cansando. Cansando de escolher entre discursos.
Cansando de defender quem não conhece sua realidade. Cansando de transformar divergência política em briga pessoal. Cansando de ver interesses particulares sendo confundidos com interesse público. E existe algo ainda mais importante: muita gente que está cansada não está fazendo barulho. Não está discutindo nas redes sociais. Não está anunciando em quem vai votar. Não está participando de guerras entre grupos políticos.
Está apenas observando. E talvez esse seja o eleitor que mais deveria ser levado a sério. Porque aquele que depende de uma relação política pode ter dificuldade para contrariar. Quem ocupa um cargo, espera uma nomeação, recebe um benefício ou mantém uma relação de proximidade pode sentir-se obrigado a defender.
Mas quem não deve nada a ninguém possui uma liberdade que não pode ser comprada facilmente. Pode ouvir todos. Pode concordar com alguns. Discordar de outros. E, principalmente, pode mudar de escolha. Esse eleitor não precisa anunciar sua decisão. Não precisa justificar seu voto. Não precisa convencer ninguém.
Ele pode permanecer em silêncio durante toda a campanha e, ainda assim, participar de uma das decisões mais importantes de uma democracia. Talvez por isso seja um erro confundir silêncio com aprovação. Há silêncios que significam acomodação. Mas existem silêncios que significam reflexão. E há um tipo de silêncio que nasce depois de muitas decepções: aquele de quem já ouviu promessas suficientes e agora prefere observar atitudes.
A política talvez precise aprender novamente uma lição simples: o povo não existe para servir aos políticos; são os políticos que recebem do povo a responsabilidade de servir. Cargo público não é prêmio. Mandato não é propriedade. Poder não é herança. E voto não é gratidão eterna.
Quem recebe o voto recebe uma responsabilidade. E quem recebe essa responsabilidade deveria compreender que, em uma democracia, nenhum político é dono do eleitor. O eleitor pode agradecer hoje e discordar amanhã. Pode admirar uma pessoa e reprovar suas decisões. Pode ter votado em além no passado e escolher outro caminho no futuro.Isso não é traição. Isso é liberdade.
Talvez, portanto, seja prudente não subestimar aqueles que estão calados.bPorque algumas pessoas não estão indiferentes à política. Estão apenas esperando para falar da maneira mais democrática que existe: através da própria escolha. E quando chegar a hora, talvez muitos descubram que o eleitor que parecia silencioso estava, na verdade, prestando atenção em tudo. Por: Maria Reis Gonçalves (Tia Nem).
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