Há gestões que erram no detalhe. Outras tropeçam no básico. E há aquelas que conseguem a proeza de transformar um prato de comida em problema de gabinete, como se alimentar crianças fosse um capricho administrativo e não uma obrigação elementar do poder público. Em Ilhéus, a merenda escolar entrou nessa zona vexatória, em que o discurso corre mais rápido que a comida e, no caso, o prato ficou para depois.
O problema, porém, não está apenas no atraso
burocrático. O que se vê é uma administração que parece sempre descoberta pelo
próprio calendário. Fala-se em processos, em trâmites, em etapas, como se a
fome pudesse aguardar o rito completo da papelada. Só que criança não aprende
com justificativa. E muito menos com promessa. Quando a merenda falha, não
falha só a cozinha. Falham a atenção, o rendimento, a permanência em sala de
aula e, principalmente, a dignidade de quem depende da escola para a refeição
mais segura do dia.
O que se desenha é uma gestão que prometeu mudança,
mas entregou improviso. Uma administração que, ao que tudo indica, ainda tenta
se localizar dentro de si mesma, enquanto a cidade segue sem direção clara em
áreas essenciais. A narrativa de culpa herdada já não sustenta o peso da
realidade, especialmente quando o tempo passa e os problemas permanecem, ou
pior, se agravam. A população já percebeu que algo não está funcionando. E não
é por falta de aviso.
Nesse cenário, a atuação de vozes mais atentas no
Legislativo acaba ganhando relevância. A cobrança pública, a fiscalização e a
insistência em tratar a merenda como prioridade não são gestos de oposição,
são, no mínimo, tentativas de recolocar o básico no centro do debate. Porque,
em qualquer cidade minimamente organizada, garantir alimentação escolar não
deveria ser pauta extraordinária, mas rotina silenciosa e eficiente.
No fim, a pergunta que fica não exige estudo técnico
nem parecer jurídico. Por que algo tão simples se tornou tão difícil?
A resposta, ainda que desconfortável, parece evidente. Falta planejamento, sobra improviso (e muitos shows para serem contratados). E, quando a gestão perde a capacidade de organizar o essencial, o resto deixa de ser promessa e passa a ser apenas expectativa frustrada. Por Emenson Silva.

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