Estava lembrando de quando o perfil oficial do Instagram era chamado de “Disneylândia”, de “faz de conta”, mas cheio de conteúdo, engajamento, ação sendo mostrada. Hoje eu entendo o que até pensei que fosse crítica rasa de uma oposição que não sabia lidar com o trabalho sendo mostrado. E admito concordar com quem controla o login da conta oficial e do vereador que fez questão de levar para os altos da Câmara, a força de uma comunicação pulsante. Queria eu também poder viver naquela Disneylândia.
Porque, olhando agora com a calma
e o poder de comparação que só o tempo nos permite, confirmo que, sem falsa
modéstia, junto da minha equipe, fiz aquilo que uma comunicação institucional
deveria fazer: contei a história real, quase que como um diário, feito por
fotos, vídeos, textos e fatos. É lógico que escolhemos os ângulos mais
fotogênicos, mas quando era um buraco sendo tampado, o trabalho de recapeamento
estava lá, quando era uma rua que tinha esperado por mais de 30 anos para ser
asfaltada, o asfalto estava lá, as estradas vicinais recebiam a atenção devida,
as crianças recebiam suas merendas quentinhas na hora certa, os mutirões de
saúde levavam atendimento médico para as localidades mais longínquas e nós
estávamos lá, oficializando e eternizando cada momento desses. A comunicação
não criava fatos; ela tinha o incômodo hábito de registrá-los.
É verdade que toda comunicação institucional
escolhe o melhor enquadramento. Nenhuma prefeitura publica a foto do problema
antes de resolvê-lo. Mas há uma diferença entre escolher o melhor ângulo e não
ter ângulo algum para fotografar. Naquele tempo, sobrava material. Às vezes até
demais, já que recebíamos pedidos dos amigos da imprensa para diminuir a
quantidade de releases enviados. Havia pauta suficiente para site, redes e
imprensa. Hoje, o silêncio virou pauta.
Curiosamente, não se pode dizer
que falte exposição. O cidadão continua vendo imagens, agendas, registros. O
que mudou foi o protagonista. A cidade — suas rotinas, seus serviços, seus
equipamentos — saiu de cena. Entrou a agenda, a visita, o evento, a celebração.
Presença existe. O que rareou foi a prestação de contas do cotidiano
administrativo: obra começando, programa estruturado, serviço funcionando dia
após dia. A vitrine permaneceu; o estoque administrativo diminuiu.
E aqui está a ironia, criticava-se
a comunicação por supostamente exagerar, mas hoje quase não se discute
comunicação pública, discute-se a ausência dela. Reduzir divulgação não reduz a
obrigação de informar. Prefeitura não presta contas quando quer; presta contas
porque deve. Publicidade institucional não é favor, é dever administrativo.
Uma cidade viva aparece
naturalmente. A coleta acontece todos os dias, a escola abre todo dia, a
iluminação funciona toda noite, a unidade de saúde atende toda semana. Nada
disso depende de superprodução audiovisual. Basta acontecer. Quando isso
ocorre, as redes se alimentam sozinhas. Quando não aparecem, restam duas
hipóteses: ou a comunicação resolveu se calar, ou a rotina administrativa ficou
escassa o suficiente para caber em poucas postagens.
Talvez aquela Disneylândia nunca
tenha sido um parque imaginário. Talvez fosse apenas uma comunicação ativa,
atenta para servir-se de cronista, contando sobre o cotidiano de um município.
Se antes havia quem quisesse morar na cidade mostrada nas redes oficiais, hoje o cidadão só quer algo mais básico: reconhecer, fora das mídias, a cidade que deveria estar sendo mostrada dentro delas. Porque fantasia mesmo não é publicar demais, escolher o enquadramento certo. Fantasia é imaginar que ausência de ação pode ser um projeto político. Por Emensor Silva.

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