A pesquisa Genial/Quaest divulgada em fevereiro mostra que o país chega à disputa presidencial de 2026 profundamente dividido, tanto do ponto de vista ideológico quanto geográfico, social e emocional. Luiz Inácio Lula da Silva lidera todos os cenários de primeiro e segundo turno, mas essa liderança convive com sinais claros de desgaste e com a consolidação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como adversário competitivo. O resultado é um quadro de vantagem numérica para o presidente, porém instável e longe de conforto.
No cenário principal de primeiro turno, Lula aparece
com 43% das intenções de voto, contra 38% de Flávio. Brancos, nulos e eleitores
que dizem não votar somam 17%, enquanto 2% permanecem indecisos. É uma
polarização estrutural, entre dois polos que abduzem o sistema
político-partidário. Há pouco espaço para alternativas de terceira via
trafegando pelo centro. A eleição é um embate direto entre esquerda e direita,
como em 2018 e 2022, já no primeiro turno.
Segundo Felipe Nunes, responsável pela pesquisa,
essa divisão também se expressa de forma clara quando se observa a avaliação do
governo. Hoje, 49% desaprovam o trabalho de Lula, enquanto 45% aprovam. Na
avaliação qualitativa, 39% consideram o governo ruim ou péssimo, 33% o avaliam
como bom ou ótimo e 26% o classificam como regular, o que gera um saldo
negativo de seis pontos.
Esses números permanecem estáveis desde outubro de
2025, com opiniões cristalizadas, pouco permeáveis a fatos novos e altamente
resistentes a mudanças abruptas. Mesmo liderando em todos os cenários, Lula
enfrenta um grande problema: 57% dos entrevistados afirmam que ele não merece
mais quatro anos como presidente, contra apenas 39% que defendem um quarto
mandato.
Esse descompasso entre liderança eleitoral e desejo
de continuidade mostra que a rejeição ao adversário é fator que desequilibra a
disputa. E revela uma postura defensiva dos eleitores, motivada pelo medo da
volta do bolsonarismo e não por um projeto político de nação que empolgue.
Entretanto, pegou de surpresa os setores que apostavam numa alternativa de
centro capaz de derrotar Lula, como o governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas (Republicanos).
Foi muito rápida a consolidação de Flávio como
principal nome da oposição. Desde sua indicação pelo ex-presidente Jair
Bolsonaro, cresceu oito pontos em cenários mais amplos, enquanto Lula oscilou
levemente para baixo e candidaturas como a de Ratinho Jr. perderam fôlego. O
senador conseguiu algo que, até então, parecia improvável: unificar o
eleitorado bolsonarista (92% votam nele), atrair a maioria da direita não
bolsonarista (65%) e se tornar, de fato, o candidato mais viável do campo
conservador.
OS INDEPENDENTES - Seu desafio é o eleitor
independente, aquele segmento que decide eleições dessa natureza. Mas a
diferença de Lula para Flávio nessa fatia do eleitorado caiu de 16 pontos, em
janeiro, para apenas cinco pontos. A vantagem de Lula em um eventual segundo
turno contra o senador caiu de 10 para cinco pontos. O sucesso do candidato de
oposição se deve ao "dedazo" do pai, mas não apenas. Há um
deslocamento de eleitores independentes, que criticavam a polarização.
Nesse aspecto, a estratégia de uma frente de
esquerda adotada por Lula no primeiro turno das eleições, a mesma tática de
2022, pode criar mais dificuldades para sua reeleição do que se imagina. O Lula
pintado para a guerra para unir a esquerda distancia o eleitor de centro.
Enquanto isso, Flávio tenta combinar o antipetismo radical com uma imagem de
candidato da pacificação. Não parece, mas a proposta de anistia se encaixa na
narrativa de que "Flávio não é tão radical quanto o pai".
Hoje, 41% não querem a continuidade de Lula no
poder, enquanto 44% têm medo da volta da família Bolsonaro. Ou seja, as
rejeições cruzadas são a tendência dominante. Lula ainda tem maior potencial de
voto entre independentes, mas essa vantagem está caindo.
A estratégia de lançamento de vários candidatos de
centro era considerada uma boa alternativa para a candidatura de Tarcísio, de
olho na captura desses eleitores independentes no segundo turno. Agora, foi
atropelada por Flávio. Os governadores do Paraná, Ratinho Jr., e de Goiás,
Ronaldo Caiado, ambos do PSD, estão sendo comprimidos pela polarização. O
governador gaúcho Eduardo leite nem se fala.
A terceira via precisaria do eleitorado bolsonarista
para se viabilizar, mas isso é uma missão impossível com Flávio na disputa.
Para crescer fora do bolsonarismo, precisa afastar-se dele. Porém, com isso,
perde o eleitorado conservador.
Trocando em miúdos: mesmo que não aconteça nada de extraordinário, teremos uma eleição dramática, muito radicalizada, na qual a narrativa de Lula, ao combinar o discurso da "economia do afeto" com a "cultura de rechaço", ocupa todo o espaço da esquerda, mas enfrenta dificuldades ao centro, que está sendo atraído pelo bolsonarismo mais uma vez.

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