Natal Itabuna

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Trief

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13 de fevereiro de 2026

DEUS NEGRO EM ITABUNA

 

Estamos instalando no acesso ao bairro Ferradas, uma estátua de Jesus Cristo, pintada de preto, como simbolismo das nossas lutas, comprometimentos e crenças contra o racismo, o preconceito e a discriminação!

    O poema "Deus Negro" de Neimar de Barros reflete sobre a universalidade de Deus, afirmando que Ele não possui cor, mas sim representa o Amor. O texto aborda a presença divina em todas as raças, culturas e condições humanas, sem distinção de cor ou classe.

DEUS NEGRO

Eu, detestando pretos. Eu, sem coração!

Eu, perdido num coreto, Gritando: "Separação"!

Eu, você, nós... nós todos, cheios de preconceitos,

fugindo como se eles carregassem lodo, lodo na cor...

E, com petulância, arrogância, afastando a pele irmã.

Mas, estou pensando agora, e quando chegar minha hora?

Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã?

Numa viagem esquisita, entre nuvens feia e bonitas,

se eu chegasse lá e um porteiro manco, como os aleijados

que eu gozei, viesse abrir a porta e eu reparasse em sua vista

torta, igual àquela que eu critiquei? Se a sua mão tateasse pelo

trinco, como as mãos do cego que não ajudei? Se a porta rangesse,

chorando os choros que provoquei? Se uma criança me tomasse

pela mão, criança como aquela que não embalei, e me levasse

por um corredor florido, colorido, como as flores que eu jamais dei?

Se eu sentisse o chão frio, como o dos presídios que não visitei?

Se eu visse as paredes caindo, como as das creches e asilos que não ajudei?

E se a criança tirasse corpos do caminho, corpos que eu não levantei

dando desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,

que era vagabundagem, mas era fome? Meu Deus!

Agora me assusta pronunciar seu nome. E se mais para a frente

a criança cobrisse o corpo nu, da prostituta que eu usei, ou do

moribundo que não olhei, ou da velha que não respeitei,

ou da mãe que não amei ?

Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa,

porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,

sei lá, só dei desgosto? E, no fim do corredor, o início da decepção.

Que raiva, que desespero, se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,

o maldito funcionário, e até, até o padeiro, todos sorrindo não sei de quê?

Ah! Sei sim, riem da minha decepção. Deus não está vestido de ouro.

Mas como? Está num simples trono. Simples como não fui,

humilde como não sou. Deus decepção. Deus na cor

que eu não queria, Deus cara a cara, face a face,

sem aquela imponente classe. Deus simples!

Deus negro! Deus negro?

E Eu... Racista, egoísta. E agora?

Na terra só persegui os pretos, não aluguei casa,

não apertei a mão. Meu Deus você é negro, que desilusão!

Será que vai me dar uma morada? Será que vai apertar minha mão?

Que nada. Meu Deus você é negro, que decepção! Não dei emprego,

virei o rosto. E agora? Será que vai me dar um canto, vai me cobrir

com seu manto? Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada

que dei? Deus, eu não podia adivinhar. Por que você se

fez assim? Por que se fez preto, preto como o engraxate,

aquele que expulsei da frente de casa?

Deus pregaram você na cruz e você

me pregou uma peça. Eu me esforcei

à beça em tantas coisas, e cheguei até

a pensar em amor, Mas nunca,

nunca pensei em adivinhar sua cor...

 

(Neimar de Barros)

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