Estamos instalando no acesso ao bairro Ferradas, uma estátua de Jesus Cristo, pintada de preto, como simbolismo das nossas lutas, comprometimentos e crenças contra o racismo, o preconceito e a discriminação!
O poema "Deus Negro" de Neimar de Barros reflete sobre a universalidade de Deus, afirmando que Ele não possui cor, mas sim representa o Amor. O texto aborda a presença divina em todas as raças, culturas e condições humanas, sem distinção de cor ou classe.
DEUS NEGRO
Eu,
detestando pretos. Eu, sem coração!
Eu,
perdido num coreto, Gritando: "Separação"!
Eu,
você, nós... nós todos, cheios de preconceitos,
fugindo
como se eles carregassem lodo, lodo na cor...
E, com
petulância, arrogância, afastando a pele irmã.
Mas,
estou pensando agora, e quando chegar minha hora?
Meu
Deus, se eu morresse amanhã, de manhã?
Numa
viagem esquisita, entre nuvens feia e bonitas,
se eu
chegasse lá e um porteiro manco, como os aleijados
que eu
gozei, viesse abrir a porta e eu reparasse em sua vista
torta,
igual àquela que eu critiquei? Se a sua mão tateasse pelo
trinco,
como as mãos do cego que não ajudei? Se a porta rangesse,
chorando
os choros que provoquei? Se uma criança me tomasse
pela
mão, criança como aquela que não embalei, e me levasse
por um
corredor florido, colorido, como as flores que eu jamais dei?
Se eu
sentisse o chão frio, como o dos presídios que não visitei?
Se eu
visse as paredes caindo, como as das creches e asilos que não ajudei?
E se a
criança tirasse corpos do caminho, corpos que eu não levantei
dando
desculpas de que eram bêbados, mas eram epiléticos,
que
era vagabundagem, mas era fome? Meu Deus!
Agora
me assusta pronunciar seu nome. E se mais para a frente
a
criança cobrisse o corpo nu, da prostituta que eu usei, ou do
moribundo
que não olhei, ou da velha que não respeitei,
ou da
mãe que não amei ?
Corpo
de alguém exposto, jogado por minha causa,
porque
não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei,
sei
lá, só dei desgosto? E, no fim do corredor, o início da decepção.
Que
raiva, que desespero, se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho,
o
maldito funcionário, e até, até o padeiro, todos sorrindo não sei de quê?
Ah!
Sei sim, riem da minha decepção. Deus não está vestido de ouro.
Mas
como? Está num simples trono. Simples como não fui,
humilde
como não sou. Deus decepção. Deus na cor
que eu
não queria, Deus cara a cara, face a face,
sem
aquela imponente classe. Deus simples!
Deus
negro! Deus negro?
E
Eu... Racista, egoísta. E agora?
Na
terra só persegui os pretos, não aluguei casa,
não
apertei a mão. Meu Deus você é negro, que desilusão!
Será
que vai me dar uma morada? Será que vai apertar minha mão?
Que
nada. Meu Deus você é negro, que decepção! Não dei emprego,
virei
o rosto. E agora? Será que vai me dar um canto, vai me cobrir
com
seu manto? Ou vai me virar o rosto no embalo da bofetada
que
dei? Deus, eu não podia adivinhar. Por que você se
fez
assim? Por que se fez preto, preto como o engraxate,
aquele
que expulsei da frente de casa?
Deus
pregaram você na cruz e você
me
pregou uma peça. Eu me esforcei
à beça
em tantas coisas, e cheguei até
a
pensar em amor, Mas nunca,
nunca
pensei em adivinhar sua cor...
(Neimar de Barros)

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