A fonte secou sem aviso, feito promessa antiga. Num dia ainda pingava, no outro virou enfeite. Ninguém explicou, ninguém se apressou. E talvez seja esse o retrato mais honesto da cidade, quando o que é essencial deixa de funcionar, a resposta oficial costuma ser o silêncio. Fonte seca não dá voto, não rende foto, não vira manchete entusiasmada. Fonte só serve quando cumpre sua função. E cumprir função, por aqui, parece sempre opcional.
No comando da cidade, manda um moço criado à base de
agrado. Nunca ouviu um “não” atravessado, nunca teve o brinquedo recolhido na
hora errada. Cresceu achando que o mundo se ajeita sozinho, desde que o sorriso
esteja no lugar e os amigos por perto. Chegou ao poder com discurso grande,
palavra bonita e promessa de maturidade. Mas governa como quem ainda espera
palmas por qualquer tentativa.
Esse moço confunde crítica com afronta pessoal. Se
alguém cobra, é porque tem raiva. Se questiona, é porque quer vantagem. Na
cabeça dele, discordar é deslealdade. Governar virou um exercício de humor.
Quando a plateia aplaude, ele aparece, quando vaia, ele se esconde atrás do
palco. Enquanto isso, a cidade real segue esperando o básico.
A Ilhéus de fora do centro não aparece nos discursos
animados. É ali que o ônibus some cedo, que o posto de saúde parece lembrança,
que a escola funciona por teimosia de professor. É ali que o trabalhador
aprende, na prática, que morar longe do cartão-postal é quase um castigo
administrativo. A cidade parece bem cuidada, mas só para quem passa pela
frente. Por trás, o abandono cresce como mato alto.
O moço gosta de palco. Gosta de rir em festa cara,
de brincar de popular, de posar como quem está à vontade entre luzes e copos.
Mas quando o assunto é dar dignidade a quem trabalha na própria gestão, o
sorriso some. Promessas de campanha viram desculpa. Compromissos assumidos
viram conversa empurrada. Falar em governança era fácil. Difícil é governar de verdade.
E não governa sozinho.
A Câmara, que deveria ser vigia, virou rede. Deitou
confortável na cama do poder e ali permanece, embalada pelo velho jogo do toma
lá, dá cá. Vereadores que deveriam apertar o passo preferem pegar carona na
popularidade do moço. As causas sociais ficam para depois, sempre depois,
enquanto o plenário se acostuma ao papel de figurante bem pago. Lembrando que
nossos vereadores estão com o penico na mão , e o executivo para cuidar do
interior não tem grana mais para festa e glamour sim e eles coitados continuam
com o penico vazio à espera do silêncio.
A oposição existe, mas anda enfraquecida. Até tenta
ocupar espaço, levantar a voz, apontar o óbvio. Só que o palco está tomado
pelos amigos do poder, pelos acordos bem-costurados, pelo barulho que abafa
qualquer tentativa de confronto mais firme. Quem discorda fala, mas fala baixo,
quase sempre engolido pela encenação oficial.
A imprensa, em parte, ajuda a sustentar esse
cenário. Não por inventar elogios, mas por escolher o que mostrar. A fachada
recebe atenção, o fundo do quintal fica fora do enquadramento. Ilhéus aparece
iluminada, mas pouco explicada. E cidade que não é explicada direito acaba mal
compreendida até por quem mora nela.
O problema do moço não é só falta de experiência. É
falta de força. Prometeu articulação, mas se isolou. Prometeu comando, mas
terceirizou responsabilidade. Descobriu tarde que administrar não é brincar de
mandar nem delegar o que dá trabalho. Campanha aceita discurso. Governo exige
entrega.
A fonte seca é mais que um detalhe urbano. É aviso.
Assim como os ônibus que não passam, os postos esquecidos, as ruas cheias de
buraco e as comunidades jogadas para fora do mapa simbólico da cidade. Cada
descuido desses é sinal de que Ilhéus está sendo tratada como cenário, não como
cacasa.
E cidade não é brinquedo de menino mimado. Cidade é
chão duro, gente diversa, problema grande. Exige mão firme, ouvido atento e
coragem para ouvir não, inclusive o não do povo.
Quem governa rindo de tudo acaba sendo levado pouco a sério. E Ilhéus, rica em história, cultura e gente trabalhadora, merece mais do que um moço sorridente brincando de administrar enquanto a fonte seca diante de todo mundo.
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