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29 de novembro de 2019

OS IRRACIONAIS SOMOS NÓS

Não está fácil saber quem é mais animalesco e irracional entre
o homem gato, cachorro, cavalo... no tempo atual!

Em meu período infanto-juvenil, fui criado em meio aos animais que passeavam soltos pelas ruas do Bairro Conceição, em Itabuna. E não eram somente cães e gatos: vacas, porcos, galinhas e jegues, também perambulavam pelo bairro, pastando, fuçando e ciscando sem que ninguém lhes importunasse a vidinha mansa e tranquila. Nossas mães não tinham a psicose de higiene da atualidade, e nós brincávamos descalços no mesmo chão em que os bichos urinavam e defecavam; que eu saiba, ninguém morreu por causa disso. Nos quintais havia lama, e no tempo de chuva as aves de criação entravam casa adentro, marcando sofás e camas com os seus pés sujos e espalhando penas molhadas por todos os cômodos, fazendo a alegria das crianças que, em algazarra, punham-se a tangê-las para o lado de fora. Os cachorros não tinham raça nem pedigree. Eram vira-latas. Poucos eram bravos como um que foi o responsável pela cicatriz que até hoje eu carrego na mão direita, fruto de mordidas suas. A maioria era mansa e bonachona, entretida com um osso achado no lixo ou madornando à sombra das árvores frondosas que ornamentavam a praça dos Capuchinhos. Uns entravam na igreja, à hora da missa dominical, e ficavam esparramados perto do altar, curtindo o frio do piso até que a celebração terminasse; outros rondavam o mercado de carne no domingo pela manha, esperando os restos que as fateiras lhes lançariam após a limpeza das tripas do boi. As nossas avós geralmente gostavam de gatos, felinos gordos que punham fim aos ratos de toda a vizinhança e desfilavam pelos muros, altivos e independentes, vez por outra surrupiando uma espinha de peixe no lixo dos quintais. Bichos e pessoas conviviam entre si, inquilinos comuns do mesmo espaço público e privado, numa troca de afeto que trazia bem-estar para ambas as partes. Sem ração industrializada, os primeiros se alimentavam dos restos de comida dos segundos e bebiam água da torneira em latas de goiabada enferrujadas, dormiam sem colchão nem cobertor e eram vacinados apenas quando havia alguma campanha do governo, mas ainda assim possuíam uma saúde de ferro, à exceção de uns poucos carrapatos. Nada disso, porém, impedia que dessem, um ao outro, o mais sincero dos afetos, nem que sentissem no fundo do coração a importância que tinha aquela companhia que tanto bem propiciava a ambos.

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