Trief

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10 de agosto de 2011

VISÃO ÍNTIMA DE UMA LITERATURA PERMANENTE

Nada mais oportuno quanto necessário do que se recuperar a história da literatura itabunense, levando em conta que nossa cidade está fazendo 101 anos de emancipação política (?) e pouco se sabe de seus escritores e poetas. Com o intuito de não se incorrer em mera repetição do que, em outra época, a respeito já se escreveu, chamo a atenção do leitor para o curto espaço disponível, portanto direcionarei o texto para uma avaliação minimalista e pessoal, absorvendo apenas o que realmente marcou-me. Não cabe aqui discutir os problemas envolvidos nesta trajetória árdua; o que importa é observar que a nossa literatura, concebida à beira da sofrida Mata Atlântica e das águas outrora gloriosas do Rio Cachoeira, num universo cultural habitado de lendas e relatos mágicos, não reflete nenhuma dúvida quanto a sua validez. Pelo contrário, os escritores nativos encontraram nela o instrumento incomparável que lhes permitiu expressar o mistério e a maravilha de uma região única em que vivem (ou viveram) juntamente com seus pássaros, seus frutos, suas árvores, peixes, cotias, tatus etc. Isto sem falar nos seres invisíveis que se tornaram visíveis graças à escrita e ao talento dos artesões da palavra, reafirmando o depoimento do historiador Oscar Ribeiro Gonçalves em seu livro “O Jequitibá da Taboca” (1960): “Itabuna é terra de artistas natos”. Mas a esta altura do comentário, devemos levar em conta um dado que, embora óbvio, passa-nos despercebido: um dos maiores e mais populares escritores do Brasil, Jorge Amado, nasceu nesta terra ingrata, sem memória. Numa narrativa breve, “A Descoberta da América pelos Turcos” (1992), o autor homenageia Itabuna, descrevendo a contribuição dos descendentes de árabes na civilização do cacau, durante a época em que coronéis e jagunços disputavam as terras virgens. O divertido caso do sírio Jamil Bichara, a quem é oferecida a mão de Adma, retoma elementos de obras anteriores, sobretudo de “Tocaia Grande” (1984). Ambos os livros estão entre os romances do contador de histórias que tematizam o universo da cultura cacaueira, dentre as quais se destacam também “Cacau” (1933), “Terras do Sem-Fim” (1943), “São Jorge dos Ilhéus” (1944), “Gabriela, Cravo e Canela” (1958) e “O Menino Grapiúna” (1982). Valendo-se da fama internacional de Jorge Amado, a literatura local teve grande prestígio nas décadas de 60 e 70, sendo divulgada calorosamente na mídia e estudada por acadêmicos. Nesta leva encantadora, passamos a conhecer Hélio Pólvora (“O Menino do Cacau”, 1975), Sonia Coutinho (“Os Venenos de Lucrécia”, 1979), Telmo Padilha (“Vôo Absoluto”, 1977), Valdelice Pinheiro (“Pacto”, 1977), Firmino Rocha (“O Canto do Dia Novo”, 1968), Cyro de Mattos (“Canto a Nossa Senhora das Matas”, 2004), o cronista Plínio de Almeida e o cordelista Minelvino. Certamente, para expressar a magnitude do fenômeno, eles se apoderaram da linguagem regional, ganhando não somente um instrumento de expressão, mas também de invenção de seu mundo e de si mesmos. Os temos expostos em seus romances, contos e poemas são quase todos derivados da experiência de vida e da cultura desses habitantes das terras-do-sem-fim. E tudo transfigurado, iluminado de intensidade, harmonizados com a essência local. Trabalhos povoados por árvores e plantas típicas, flores e frutos, memória e invenção, sangue e suor, tudo tocado de inesperada originalidade e realismo. Segundo Hélio Pólvora, “os autores formados no sul da Bahia refletem algumas características do viver e do sentir do grapiúna, mas não chegam a configurar uma escola ou movimento literário distinto, autônomo. A terra é rica tematicamente porque em torno do cacau houve um processo econômico e social até certo ponto civilizador, gerando muitos conflitos, ambições e sonhos. As pessoas que lidam com cacau são sofridas, ciclotímicas: ou nadam em euforia ou afundam em depressões. Maior que a propalada riqueza do cacau é a riqueza de tipos humanos e relatos”. Nos anos 80, quando comecei a escrever, conheci todos esses citados acima e muito aprendi com eles, mestres que sonhavam com a riqueza cultural distribuída entre os deserdados de sua terra natal. Nessa década efervescente, criativa, de traços muitos especiais, se comparada à mornidão literária das décadas seguintes, reconheceu-se a força literária. Tempo de colunistas culturais (Pedro Ivo Bacelar, Raimundo Galvão, Luis Wilde e Joselito Reis) e do Projeto de Atividades Culturais Cacau (PACCE), onde herdeiros de uma tradição moderna, os novos escribas, se desdobraram em tendências marcantes, da dramaturgia à poesia, deixando sua contribuição para a riqueza cultural de uma cidade. Na origem dessas experiências, estava o questionamento que, de um lado negava a fantasia em favor da racionalidade e, de outro, negava a linguagem realista em função da autonomia do intimismo, deixando de se referir ao mundo exterior. Neste alvoroço positivo, onde o injustamente esquecido Hélio Pitanga xerocava sua própria criação, transformando-a em livros artesanais e vendendo-os de mão em mão, e a professora Maria de Lurdes Netto Simões incentivava os jovens autores através de elaboradas antologias poéticas e artigos críticos, parecia concebível que determinada literatura, em determinado contexto ou tradição, evoluísse em riqueza ou complexidade morfológica, sintática e semântica. Inclusive, era bastante conhecida uma resposta dada, por Adonias Filho (da vizinha Itajuípe), a um interlocutor, que queria saber, o que, além de cacau, produzia sua região. Ele prontamente respondeu: “Escritores”. Calcados nessa forte tradição, surgiu uma nova geração de ficcionistas e poetas: Jorge de Souza Araújo, Ruy Póvoas, Antônio Lopes, Kleber Torres, Genny Xavier, José Delmo (nascido em Macuco, mas com atuação expressiva em Itabuna), Dimas Braga, e mais adiante, Adylson Machado, Piligra, George Pellegrini, Zélia Possidônio, Gustavo Atallah Haun, Iolanda Costa, Ivan Carlos, Sérgio Brandão, Ulisses Góes, Milena Paladino, Antonio Nunes e Daniela Galdino. Além deles, duas editoras dignamente mapearam a literatura itabunense: a Editus/UESC e a Via Litterarum. O certo é que escrever é um ofício solitário, somente recomendado para guerreiros. É raro ser reconhecido em vida – principalmente na nossa cidade natal. Sempre o silêncio é o trunfo maior, superado vez ou outra por armadilhas inesperadas. É preciso grande força de vontade para não desistir, afinal a maioria das pessoas não leva a sério qualquer gênero de arte e a mídia prefere celebrar políticos e fatos criminais escabrosos e descartáveis. Todos esperam a morte do escritor para declarar publicamente o seu talento, a sua dedicação, a falta que ele faz. A comédia humana necessita do artista defunto para exaltá-lo. Sendo assim, afogados em dificuldades perenes, muitos deixaram de escrever, outros ainda escrevem, mas guardam seus escritos. Alguns perderam a identidade, saciados pela nova cultura globalizada provocada por imagens televisivas, navegação eletrônica ou trânsito de pessoas, dentre outros fatores que, de certo modo, esmagam as culturas locais e as diferenças culturais. Os saraus minguaram e o espaço na mídia praticamente desapareceu, restando um ou outro talento acossado pela mediocridade generalizada. O que nos causa, como itabunenses, desalento e vergonha, é que obras de qualidade escritas por autores da cidade estão esquecidas, ignoradas, encerradas em bibliotecas sombrias como se nada representassem. Todo esse tesouro deveria ser habitualmente consultado e estudado, como os países alfabetizados fazem com a sua literatura. Mas isso, eu sei, vai demorar muito, pelo menos enquanto os políticos nativos continuarem a utilizar as verbas em proveito eleitoreiro, para engordar suas fortunas secretas e seus cérebros ocos. Por eles, nunca passaremos de uma cidade em desenvolvimento. Afinal, a política continua sendo uma arte tão difícil quanto suspeita. Portanto, meus caros itabunenses, lembrem-se que é preciso mais cuidado ao votar. Ortega y Gasset – para quem o homem é a sua circunstância -, teorizou a necessidade de um poder culto, bem informado, não sendo assim, os vencedores terão uma governabilidade plena sem direcionamento, sem preocupação com a história, a educação ou a benção da arte. Evidencia-se a necessidade do político bem informado, aquele que tem em consideração as distintas culturas (ou seja, o cosmopolita), que venha a ser elo na cadeia de transmissão das qualidades da sociedade itabunense; de interpretação e respeito à cultura local. Pois, muito bem, pense nisso. Vamos votar em quem gosta de livros, de música e cinema de qualidade, em quem se preocupa com o intelecto, a estética e a ética, só assim os nossos escritores serão respeitados e admirados. Só assim muita gente aprenderá que literatura é permanência, é um investimento sem risco, de valorização garantida. Itabuna tem sido uma fonte rica como temática para o poema e a prosa. Já podemos falar em uma literatura itabunense? “Minha terra natal! Que te abrasas e inunda De tanto sol! Assim entre agrestes vedores Do Cachoeira escutando os bravios rumores, Como a Iara gentil destas águas profundas! Oh! Como sou feliz e me sinto orgulhoso De um dia ter nascido em seu seio faustoso Sob o esplendor de um céu de beleza tão rara” (“Itabuna”, de José Bastos”) (Antonio Nahud Júnior - www.ofalcaomaltes.blogspot.com).

3 comentários:

  1. Djalma Novais10 agosto, 2011

    Amo ler. A leitura eleva a capacidade intelectual. A literatura e todas as outras ARTES - pintura, escultura, música... - são criações do ser humano. Essas criações são influenciadas pelo contexto histórico, logo, guardam marcas do período em que foram produzidas. Livros podem te fazer sorrir, chorar, sonhar e, principalmente, refletir.

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  2. Acho que a literatura é uma das boas coisas que podemos desfrutar para aumentar nosso saber.
    A Literatura é a história escrita. Tudo o que aconteceu no mundo foi praticamente descrito por grandes autores.
    Além disso livros nos dão cultura, diversão e ótimo entretenimento.
    Gutemberg Matos

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  3. Sandro Santos10 agosto, 2011

    ESSA POSTAGEM PROVA O QUANTO PERDEMOS EM NÃO CONTINUAR CONTANDO COM A CONTRIBUIÇÃO DESTE BRAVO CIDADÃO EM NOSSAS PRÓPRIAS FRONTEIRAS.
    AS VEZES O SUCESSO SÓ ENCONTRADO EMLUGARES DISTANTES... INFELIZMENTE.

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