Condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-governador do Rio e pré-candidato ao Senado, Cláudio Castro (PL), se junta ao grupo dos últimos chefes do Poder Executivo no estado que foram alvo de prisões, cassações e impeachments. A lista inclui todos os governadores eleitos nos últimos 30 anos.
Castro
renunciou ao mandato na véspera do julgamento, em uma manobra que tentava
evitar a destituição do cargo. O entendimento que se consolidou no TSE, no
entanto, seguiu o voto da ministra relatora, Isabel Gallotti, que já havia
votado em novembro pela cassação de Castro. A Justiça Eleitoral considerou
Castro culpado por envolvimento em um esquema de abuso de poder político e
econômico nas eleições de 2022. Agora, ele está inelegível pelos próximos oito
anos.
O
antecessor de Castro, Wilson Witzel, foi destituído durante o mandato, mas por
um processo de impeachment. Antes de Witzel, outros governadores do Rio
chegaram a ser presos e condenados pela Justiça após o fim dos seus mandatos.
Veja a lista completa a seguir:
WILSON
WITZEL - Wilson Witzel (2019-2021) — em cuja chapa Castro se elegeu como
vice-governador — foi o primeiro a ter um processo de impeachment consumado no
estado desde a ditadura militar. Ele foi acusado de cometer crime de
responsabilidade por suposto envolvimento em fraudes na compra de equipamentos
e celebração de contratos durante a pandemia da Covid-19.
Condenado
a cinco anos de inelegibilidade no processo de impeachment, Witzel verá o prazo
se extinguir neste ano. Ele já anunciou, neste mês, sua pré-candidatura ao
governo do Rio em 2026, e argumenta estar "mais experiente, mais cauteloso"
para voltar à função.
LUIZ
FERNANDO PEZÃO - Antes, Luiz Fernando Pezão (2015-2018) foi preso enquanto
ainda ocupava a cadeira de governador, em novembro de 2018, denunciado pelos
crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Ele foi
detido no âmbito da Operação Lava-Jato em uma ação que teve como base provas
obtidas durante outras diligências que apuraram crimes cometidos justamente por
seu antecessor, o ex-governador Sérgio Cabral (2007-2014).
SÉRGIO
CABRAL - Sérgio Cabral (2007-2014) colecionou denúncias e processos por
diferentes crimes, incluindo corrupção, lavagem de dinheiro, organização
criminosa, evasão de divisas, crimes contra o sistema financeiro, fraude em
licitação e formação de cartel. Só em relação ao crime de lavagem de dinheiro,
foram 184 acusações, que dariam conta da ocultação de cerca de R$ 40 milhões e
movimentação de mais de US$ 100 milhões. Dos processos movidos, o ex-governador
do Rio de Janeiro recebeu a condenação em 23, com penas que, somadas,
ultrapassavam 430 anos de prisão. Na primeira delas, em 2016, Cabral foi réu
confesso em um esquema de corrupção em obras da usina nuclear de Angra 3,
acusado de desviar R$ 224 milhões em contratos do governo do Estado com
empreiteiras.
ROSINHA
GAROTINHO - A ex-governadora Rosinha Garotinho (2003-2006) foi presa em
novembro de 2017 no âmbito da Operação Caixa d'Água, deflagrada pela Polícia
Federal. Ele foi acusada de integrar uma organização criminosa que arrecadava
recursos de forma ilícita com empresários com o objetivo de financiar as
próprias campanhas eleitorais e a de aliados, inclusive mediante extorsão.
ANTHONY
GAROTINHO - Marido de Rosinha, o ex-governador Anthony Garotinho (1999-2002)
foi preso pela primeira vez em 2016. Ele foi condenado pelo TSE por corrupção
eleitoral, associação criminosa, supressão de documento e coação de
testemunhas, cometidos nas eleições de 2016 em Campos dos Goytacazes (RJ), nos
fatos investigados na chamada Operação Chequinho.
MOREIRA
FRANCO - Moreira Franco (1987-1991) foi preso em 2019 pela Operação Lava-Jato
por suspeita de integrar esquemas de fraudes milionárias na Caixa Econômica
Federal, realizadas enquanto ele era vice-presidente da instituição financeira.
Sua prisão, no entanto, durou poucos dias, e o ex-governador foi absolvido das
acusações de improbidade administrativa no ano passado devido à ausência de
provas concretas. No entendimento da juíza Cláudia Valéria Bastos Fernandes, da
11ª Vara Federal do Rio de Janeiro, a acusação criou "narrativas recheadas
de suposições".
Antes,
em 2017, à época como ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República
no governo de Michel Temer, ele foi condenado a devolver R$ 2 milhões aos
cofres públicos por desvio de recursos na educação no estado do Rio.
ENTENDA
A CONDENAÇÃO DE CASTRO - Segundo as investigações, Castro utilizou a estrutura
da Fundação Ceperj e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) de forma
ilegal para financiar cabos eleitorais e ampliar seu apoio em meio à disputa.
Agora, o ex-governador está inelegível pelos próximos oito anos.
Conforme
as investigações, a Fundação — que até então era um braço de pesquisas do
governo do Rio — passou a contratar milhares de funcionários, sem processo
seletivo e com indicações de políticos, para projetos sociais. Os pagamentos
eram feitos na boca do caixa a pedido do próprio governo.
2022:
INVESTIGAÇÃO - Com início em 2022, a investigação do Ministério Público
Eleitoral do Rio apontou 27 mil contratações sem transparência de funcionários
temporários que atuariam no Ceperj e na Universidade do Estado do Rio (Uerj).
As vagas acomodariam aliados do ex-governador, de olho na reeleição.
O
suposto esquema teria a participação de Rodrigo Bacellar (União), presidente
afastado da Assembleia Legislativa do Estado do Rio (Alerj). Castro venceu a
reeleição no primeiro turno com 58,67% dos votos, ante 27,38% de Marcelo
Freixo, que ficou em segundo lugar.
2024:
JULGAMENTO NO TRE-RJ - O caso do Ceperj foi julgado em maio de 2024 pelo
Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ). Por 4 votos a 3, o
tribunal decidiu, na ocasião, que não ficaram comprovados abusos de poder por
parte dos acusados para a obtenção de vantagens eleitorais no pleito de 2022.
Recursos do Ministério Público Eleitoral e também da coligação que apoiou
Marcelo Freixo, candidato derrotado na disputa pelo governo do Rio, levaram o
caso ao TSE.
2025:
JULGAMENTO NO TSE - O MP sustentou no TSE, em novembro, que houve uso indevido
da estrutura estatal e abuso de poder político e econômico durante o período
eleitoral. Foi pedida a cassação e inelegibilidade por oito anos de Castro, de
Bacellar e outros acusados. O vice na chapa, Thiago Pampolha, não foi incluído
pelo MP na cassação por ter assumido cargo no TCE. A relatora Isabel Gallotti
votou pela cassação e realização de novo pleito. Na sequência, foi pedido
vista.
2026:
CONDENAÇÃO - O julgamento retornou com o voto do ministro Antônio Carlos
Ferreira, que é o atual corregedor-geral da Justiça Eleitoral, em março. Ele
afirmou que os envolvidos foram "pessoalmente responsáveis pela prática do
abuso de poder" e Castro teve "participação direta". O ministro
seguinte, Nunes Marques, também pediu vista, o que fez o julgamento ser
retomado somente nesta terça-feira. Mesmo após renunciar ao cargo para evitar
ser cassado, Castro foi condenado pelo TSE.
QUEM
ESTÁ NO COMANDO DO ESTADO? - Com a renúncia de Castro, o presidente do Tribunal
de Justiça do Rio (TJRJ), Ricardo Couto, assume o cargo de forma provisória.
Ele herdou a função porque a linha sucessória no estado foi desmontada desde o
ano passado. O vice-governador Thiago Pampolha (MDB) virou conselheiro do
Tribunal de Contas do Estado (TCE), e o presidente da Assembleia Legislativa do
Rio (Alerj), Rodrigo Bacellar, foi afastado do cargo após operação da Polícia
Federal.
Agora, outro mandatário será escolhido por meio de eleição indireta, realizada pelos deputados estaduais exatamente 30 dias após a renúncia. O eleito pelos deputados cumprirá um "mandato-tampão", com validade até 31 de dezembro deste ano, e pode se candidatar nas eleições de outubro, quando todo o eleitorado vota para governador.

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