O procurador-geral da República, Paulo Gonet, negou ter percebido algum indício de crime nas relações entre Daniel Vorcaro e a dupla Alexandre de Moraes-Dias Toffoli. Por isso, não fará nenhuma investigação sobre o contrato de R$ 129 milhões com a mulher e a filha de Moraes e as dezenas de milhões aportados no Tayayá de Toffoli e irmãos. "Investigação pressupõe indício de crime", disse Gonet, em entrevista à última revista Veja.
Quando percebe um fummus commissi delicti, indício
de cometimento de delito, a procuradoria pública tem de tomar a iniciativa de
abrir investigação. Se era apenas fumaça, encerra a investigação. Se não, a
amplia e apura mais. Gonet parece ter tido covid e perdido o olfato, porque há,
sim, cheiro da fumaça da moralidade no Supremo sendo queimada. O procurador
nada percebeu. Talvez nem tenha procurado. O delegado de polícia relator da CPI
do Crime Organizado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), nem precisou procurar.
Os fatos falam por si, e incluiu no pedido de indiciamento Gonet, pelo que não
fez, e os supremos Moraes, Gilmar e Toffoli, pelo que fizeram.
Não há justificativa possível de normalidade num
contrato de R$ 129 milhões, com pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões sem que
hajam os correspondentes gigantescos serviços prestados. Não bate com o mercado
advocatício. Assim como aporte de R$ 35 milhões no Tayayá, como se fosse um
luxuoso resort caribenho. Não bate no mercado imobiliário. Como Moraes e
Toffoli são juízes - e da mais alta Corte do país -, o que se espera é que
estejam acima e longe de qualquer suspeita, acima da mais ínfima suspeita. Mas
qualquer mente, por mais ingênua que seja, vai suspeitar. O procurador-geral não
suspeita.
Talvez se deva lembrar que o artigo 37 da
Constituição estabelece que a administração pública obedecerá ao princípio da
moralidade, entre outros. Acaso esses negócios milionários, mais a
promiscuidade entre juízes e banqueiro aventureiro, podem ser classificados
como envoltos no manto alvo da moralidade? Acaso o que é acordado pela mulher
de um juiz fica segregado do patrimônio do marido? Ele não mora na mesma casa
que foi comprada com R$ 12 milhões, certamente não havidos de seu salário da
magistratura? Na empresa do Tayayá, a Maridt - sigla de Dias Toffoli, de
Marília - já não ficou mostrado que o irmão padre e o irmão engenheiro
eletricista apenas emprestaram os nomes para a empresa sediada na casa da
cunhada? Gilmar Mendes não deixou quebrar o sigilo da empresa. Seria tudo isso
imoralidade, mas nada ilegal? Difícil de interpretar assim, porquanto a
Constituição exige moralidade.
Agora, como na CPMI do INSS, do roubo dos velhinhos, trocaram integrantes da CPI para abafar o relatório e não investigar nada. Quem fez as trocas não quer apurar, quer proteger a imoralidade. Só que vem aí a delação de Vorcaro, que deve jogar luz sobre a penumbra que ainda está abaixo da ponta transparente e brilhante do iceberg. Depois do que sabemos, do que a CPI do Crime Organizado sabe e do que a Polícia Federal descobriu nos telefones, depois que Vorcaro contar, vai ser impossível manter no STF quem não se enquadrar na exigência do artigo 101 da Constituição, de que para ser ministro do Supremo a reputação tem que estar ilibada. Por Alexandre Garcia.
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