2 de janeiro de 2017

NUNCA NOS ACOSTUMAMOS COM A MORTE

Jesus sobreviveu à imolação, para que tivessemos ressurreição
Depois de uns 30, 40, 50... anos vividos, a gente começa a perder pessoas amadas, quando ainda acalentavam tantos sonhos, faziam planos e tinham muita coisa a oferecer aos que lhes queriam bem. Com a surpresa nefasta das notícias tristes, invade-nos à alma a melancolia que sempre se instala quando a foice afiada da Indesejada das Gentes faz a sua colheita funérea. Não há novidade alguma em morrer, dirão os espíritos pouco sensíveis. Para quem crê na vida eterna a morte é apenas uma passagem, ponderarão outros mais ligados às coisas do alto. Mas o fato é que, independentemente de qualquer crença que possamos ter, o vazio que a perda de um ente querido nos impõe é um dos fardos mais difíceis de carregar. Faz-nos falta aquele cheiro do perfume predileto, o som daquela voz que nós seríamos capazes de reconhecer mesmo em meio a um milhão de outras vozes, uma certa maneira de balançar a cabeça para concordar conosco, um brilho no olhar que nós nunca encontramos em mais ninguém. A morte dos que nós amamos instaura em nosso cotidiano uma ausência que chega mesmo a doer, uma falta que nos aperta o coração, rareia o nosso ar e deixa no âmago uma incômoda sensação de vazio. É uma circunstância que nos atropela, literalmente, deixando-nos aos pedaços. Seguimos adiante, mas não somos nunca mais os mesmos. Ensinam-nos a amar e a cuidar, mas ninguém nos ensina a perder e a nos despedir. Por mais que passe o tempo, ainda que nos acostumemos, forçadamente, a não termos mais no dia-a-dia aquele corpo ao nosso alcance, há momentos em que grita bem alto em nós a vontade imensa de buscar aquele abraço que tanto nos confortava, de receber aquele beijo que tanto nos fazia bem. E isso não tem nada a ver com fé ou fortaleza espiritual: é uma sensação física mesmo, carência do toque, do calor da pele, da firmeza das mãos. Imaginar a pessoa amada sozinha, na frieza de uma sepultura, é tortura psicológica que beira as raias do insuportável. Somos demasiadamente humanos, como cantou o poeta, e essa nossa humanidade insiste em nos lembrar que a saudade é doença sem cura, ferida aberta que sangra por décadas a fio, machucado que de vez em quando magoa com gosto. Pode até deixar de inflamar, mas nunca cicatriza por completo. Como uma tatuagem indesejada, marca o nosso ser para todo o sempre.

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