De vez em quando, sentia-me compelido a ver documentários do mundo animal.
Meus filhos eram menores e os bichos despertavam incomensurável curiosidade. Por que não dizer? Paixão e compaixão.
O mais velho, Vadinho, era fixado nos dinossauros. Fiquei triste quando ele
demonstrou não estar tão interessado pelos lagartos pré-históricos. O clímax
dessa tragédia foi ele desistir de ser veterinário. Os vídeos me remetiam aos
objetos internos mais primitivos quando bisões eram impiedosamente massacrados
pelos leões. Sem coragem de encarar os chifres de frente, usavam de golpes
baixos, atacando em bandos. Elegiam os indefesos, os deficientes físicos. A
Natureza não perdoa solitários, mancos e fracos. Finais previsíveis, os cercos
a zebras e girafas eram angustiantes. Tendo a “cadeia alimentar” como modelo,
biólogos, ambientalistas e palpiteiros esforçam-se para demonstrar tolerância
nessa selvagem “lei do mais forte”, ou “lei da selva”. Assim, seria justo, o
sacrifício de alguns para o equilíbrio da Natureza. Nada de maldade, sadismo,
perversão, muito menos crueldade... A propósito, em recente visita a fazenda de
umamigo, registrei que ele, antes de sangrar um caprino para uma buchada,
aplicava-lhe golpes no segmento cefálico para tirar-lhe a consciência. Houve
protestos. Só não concordo que tenha havido tortura. De fato, devem existir
meios menos rudes de sacrificar essas criaturas. Quem sabe poderia ocorrer em
ambiente cirúrgico, sob anestesia geral, com a, digamos, vítima intubada... Diz-se que bovinos sacrificados em
frigoríficos seriam espetados por um estilete que lhes atravessa a nuca. Há
paralisia e morte imediatas. Não saberia dizer se essa via é a mais “humana”. Creio
não haver meio mais terrível que o empregado para matar os lindos peixinhos: a
asfixia. Retirados da água, não respiram. Pergunto-me como alguém ainda tem
coragem de comer uma muqueca de peixe, mesmo sabendo de morte por tão vil
processo. Quando não são atropeladas, as simpáticas galináceas são sacrificadas
através de golpes mortais no pescoço. A agonia é breve, mas angustiante. Há
convulsões. Nem todos têm estômago para assistir a essas cenas.

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